2023-09-06

Da ausência de alguém tão presente

Em Não Saí da Minha Noite, o oitavo título de Annie Ernaux no catálogo da Livros do Brasil, a Prémio Nobel regista o pavor de assistir ao declínio mental e físico da mãe, doente de Alzheimer

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Evocação inesquecível de amor, de memória e da dor de separação entre mãe e filha, Não Saí da Minha Noite é um relato cru e pessoalíssimo, mas de grande ressonância no leitor.

Se Uma Mulher refletia o sofrimento da perda da progenitora, evocando os seus mais importantes marcos biográficos e a memória dos momentos mais doces com ela partilhados, neste diário o que encontramos é a estranheza, o choque, a frustração, o medo, a repugnância até, de já não conseguir rever naquele ser o outro que outrora fora. Pior ainda, Annie Ernaux antevê na mãe – agora reduzida a criança, mas que nunca crescerá – a sua própria velhice, a ameaça da degradação do seu corpo. «Entre a minha vida e a minha morte, só me resta ela, demente.»

 

O livro já se encontra em pré-venda e estará disponível nas livrarias a 7 de setembro.

 

SOBRE O LIVRO

No verão de 1983, durante uma vaga de calor, a mãe de Annie Ernaux sentiu-se mal e foi hospitalizada. Aperceberam-se de que não comia nem bebia há vários dias, estava desorientada, revelava falhas de memória. Pouco depois, foi diagnosticada com a doença de Alzheimer. «Não saí da minha noite» foi a última frase que escreveu, numa carta a uma amiga, quando já se encontrava a viver com Annie, que nos três anos seguintes manteve um diário. Aí registou não apenas os sinais do agravamento da doença da mãe, mas também os seus próprios sentimentos ao ver-se impotente, assistindo ao definhar daquele ser que lhe deu vida. «Sonho muitas vezes com ela, tal qual era antes da doença. Está viva, mas esteve morta. Quando acordo, durante um minuto, tenho a certeza de que ela vive realmente sob essa dupla forma, morta e viva ao mesmo tempo, como as personagens da mitologia grega que atravessaram duas vezes o rio dos mortos.»

 

SOBRE A AUTORA

Annie Ernaux nasceu em Lillebonne, na Normandia, em 1940, e estudou nas universidades de Rouen e de Bordéus, sendo formada em Letras Modernas. É atualmente uma das vozes mais importantes da literatura francesa, destacando-se por uma escrita onde se fundem a autobiografia e a sociologia, a memória e a história dos eventos recentes. Galardoada com o Prémio de Língua Francesa (2008), o Prémio Marguerite Yourcenar (2017), o Prémio Formentor de las Letras (2019) e o Prémio Prince Pierre do Mónaco (2021) pelo conjunto da sua obra, destacam-se os seus livros Um Lugar ao Sol (1984), vencedor do Prémio Renaudot, e Os Anos (2008), vencedor do Prémio Marguerite Duras e finalista do Prémio Man Booker Internacional. Em 2022, Annie Ernaux foi distinguida com o Prémio Nobel de Literatura.