2022-10-17

«Aqui está, finalmente, o que realmente escrevi»

Livros do Brasil publica pela primeira vez em Portugal a versão integral não censurada de Bábi Iar, de Anatóli Kuznetsov. A Introdução de Irene Flunser Pimentel contextualiza esta nova edição no atual momento histórico, quando aquele território volta a ser palco de guerra

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«Esta edição de Bábi Iar, de Anatóli Kuznetsov, publicada pela Livros do Brasil, é diferente e complementar da versão que a mesma editora deu à estampa em 1970. Enquanto esta se baseava na tradução da versão soviética de 1966, censurada pelas autoridades, a actual tem origem no livro completo com o mesmo título, Bábi Yar, publicado em 1970, nos EUA, depois de, no ano anterior, o autor se ter exilado para o Reino Unido», explica Irene Flunser Pimentel na Introdução da versão integral não censurada, agora editada na coleção Dois Mundos da Livros do Brasil. Entre os doze e os catorze anos, quando, na suas próprias palavras, era «um faminto e assustado rapazinho», o autor juntou notas sobre o infame massacre no que tinha sido até então o seu local de brincadeiras. O resultado é um documento em forma de romance.

 

O livro já se encontra em pré-venda e estará disponível nas livrarias a 20 de outubro.

 

De forma a permitir aos leitores identificar as diferenças entre versões, na presente edição são destacadas a negrito as passagens que foram acrescentadas ou significativamente alteradas. É o caso do Prefácio, assinado pelo autor, onde conta que quando apresentou o manuscrito original a uma revista de Moscovo, ele foi-lhe devolvido imediatamente com a advertência de o não mostrar a ninguém até ter removido toda «a tralha antissoviética» que continha. «Aqui está, finalmente, o que realmente escrevi», desabafa. Considerado um dos mais importantes testemunhos sobre a ocupação nazi de território soviético, Bábi Iar permite um olhar sobre a história da Ucrânia particularmente relevante para a leitura dos acontecimentos recentes na Europa.

 

SOBRE O LIVRO

Em setembro de 1941, as tropas nazis conquistaram Kiev. Fascinadas pela elegância dos soldados alemães ou esperançosas na reconquista do exército soviético, as populações dividiram-se. Anatóli Kuznetsov tinha doze anos e assistiu à discordância no seio da própria família. Mas à medida que os dias corriam, tornava-se claro que aquele território estava a ser palco de um crime terrível: os disparos não cessavam, as valas comuns eram abertas, o fumo tomava conta dos céus, e os judeus, os ciganos e quaisquer opositores às regras alemãs desapareciam das ruas. Não existem números consensuais, mas estima-se que mais de 100 000 pessoas terão sido mortas em Bábi Iar, às portas da capital ucraniana, e, durante décadas, quer alemães quer russos tentaram escondê-lo. Em 1961, Kuznetsov submeteu o seu testemunho deste período às autoridades soviéticas e, em 1966, saiu por fim em livro, numa versão fortemente truncada. Apenas após a fuga do autor para Inglaterra, em 1969, seria revelado o texto completo – e é esse que agora, pela primeira vez, se dá a ler em Portugal. Um perturbador retrato da brutalidade da guerra vista pelos olhos de uma criança e uma lição sobre o poder da censura.

 

SOBRE O AUTOR

Anatóli Kuznetsov nasceu em Kiev, na Ucrânia, a 18 de agosto de 1929, filho de pai russo e mãe ucraniana. Aos catorze anos, começou a registar os acontecimentos que testemunhou sobre o massacre de Bábi Iar, perpetrado pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial. A primeira edição do seu livro ocorreu em 1966, numa versão censurada pelas autoridades russas. O texto integral seria publicado em 1970, sob o pseudónimo A. Anatoli, já após a fuga do autor para Londres, onde trabalhou como repórter para a Radio Liberty. Faleceu na capital britânica em 1979.

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